Anvisa abre consulta pública para banir os agrotóxicos parationa metílicia e forato, prejudiciais à saúde humana

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, nesta segunda – feira (23/1), duas consultas públicas recomendando o banimento dos agrotóxicos parationa metílicia e forato. As recomendações da Anvisa estão baseadas em estudos científicos que relacionam o uso desses agrotóxicos a problemas de saúde devido a sua toxidade.

“Nossa medida pretende reduzir o risco da população exposta a esses produtos, tendo em vista que são extremamente tóxicos e estão sofrendo restrições de uso em diversos países”, afirma o diretor da Agência, Agenor Álvares.

A parationa metílica é um inseticida e acaricida que tem uso autorizado nas culturas do algodão, alho, arroz, batata, cebola, feijão, milho, soja e trigo.  “Este agrotóxico possui características neurotóxicas, imunotóxicas, mutagênicas e provoca toxicidade para os sistemas endócrinos e reprodutores e para o desenvolvimento de embriões e fetos, além de gerar desordens psiquiátricas”, explica Álvares. O consumo excessivo de parationa metílica, por exemplo, pode intoxicar os sistemas endócrino, reprodutor, causar desordens psiquiátricas, e problemas no desenvolvimento de fetos. Já o forato está associado ao diabetes mellitus na gravidez, toxicidade reprodutiva, respiratória, nos rins (nefrotoxicidade)  e no sistema nervoso (neurotoxicidade).

Quanto ao forato, o diretor da Anvisa destaca que o produto pode provocar letalidade em doses baixas, por diferentes vias de exposição, e está associado com diabetesmellitus na gravidez, toxicidade reprodutiva e para o sistema respiratório, nefrotoxicidade  e neurotoxicidade. Esse agrotóxico é um inseticida, acaricida e nematicida (empregado para combater alguns parasitas) utilizado no cultivo do algodão, amendoim, batata, café, feijão, milho, tomate e trigo.

Na Comunidade Europeia, China, Japão, Indonésia, Sri Lanka e Tanzânia os dois produtos já são proibidos. Nos Estados Unidos, a utilização é restrita: apenas aplicadores certificados podem adquirir e utilizar.

Entre os agrotóxicos de grande importância para a saúde pública estão os organofosforados. Trata-se de um grupo de compostos que, por sua toxicidade tem sido usado historicamente como inseticida bem como agente químico de guerra.

Os primeiros compostos organofosforados foram preparados por alquimistas na Idade Média, mas seu estudo sistemático teve início no século XIX, por Lassaigne em 1820, com a esterificação de ácido fosfórico. Vinte e cinco anos mais tarde, uma série de derivados de fosfinas foi preparada por Thinard e colaboradores e a partir destes trabalhos o progresso da investigação dos compostos de fósforo foi acelerado (SANTOS et al, 2007).

Um aspecto importante da parationa metílica (PM) é que durante sua biotransformação é formado o metabolito paraoxona, que aumenta e prolonga os efeitos tóxicos desse princípio ativo (ANVISA, 2002). Os metabolitos da transformação ou produtos de degradação podem ser ingeridos junto com os alimentos ou com a água. A transformação dos organofosforados que têm ligações tiofosfato (P=S) são oxidadas a ortofosfato (P=O). Sob esta última forma, como vimos, os oorganofosforados são potentes inibidores diretos das acetilcolinesterases. Ao passar pelo fígado os organofosforados sofrem biotransformação, originando diferentes metabólitos, que podem ser mais tóxicos do que o composto original, como é o caso da parationa metílica, devido ao paraoxon.

Após a absorção, a parationa metílica é amplamente distribuída em tecidos e órgãos, podendo ser primariamente detectada nos sistemas hematopoiético, cardiovascular, reprodutivo e nervoso, atingindo concentrações maiores em fígado e rins. Devido à sua propriedade lipofílica, os organofosforados podem depositar-se no tecido adiposo, sendo liberados gradualmente durante vários dias após a exposição, provocando toxicidade nos diferentes sistemas. No organismo, esse agrotóxico atravessa a barreira hematoencefálica, provocando alterações no sistema nervoso. Em mulheres grávidas pode transpor facilmente a placenta, atingindo o feto.

O forato é um organofosforado lipossolúvel rapidamente absorvido por mamíferos através das vias orais, inalatória e dérmica, apresentando alta toxicidade através dessas vias de exposição. Os distúrios do forato são neurocomportamentais os mais freqüentemente observados em indivíduos cronicamente intoxicados. Os sintomas do tipo neuro-comportamentais em geral são insônia, sonambulismo, sono excessivo, ansiedade, retardo de reações, dificuldade de concentração e uma variedade de sequelas neuropsiquiátricas, labilidade emocional, distúrbios de linguagem, apatia, irritabilidade, alucinações, delírios, tremores, reações esquizofrênicas, alterações no EEG, neuropatia periférica, parestesias, hiporreflexia, deficiência na coordenação neuro-motora e depressão.

Os sinais e sintomas das intoxicações agudas por organofosforados (forato) variam em relação ao tipo de ação e ao órgão alvo. No Sistema Nervoso Autônomo, os efeitos muscarínicos ocorrem no aparelho digestivo, com perda de apetite, náuseas, vômitos, dores abdominais, diarréia e defecação involuntária; no aparelho respiratório: rinorréia, hiperemia de vias aéreas superiores, broncoespasmo e aumento da secreção brônquica, edema pulmonar; no sistema circulatório: bradicardia, bloqueio aurículo-ventricular; no sistema ocular: lacrimejamento, dor ocular, congestão da conjuntiva, distúrbio de visão, espasmo ciliar, dor no supercílio e miose; no aparelho urinário: diurese freqüente e involuntária; nas glândulas exócrinas: transpiração excessiva, salivação extrema. Outras alterações observadas são: micção involuntária, sudorese, ereção peniana, bradicardia e hipotensão.

Alguns estudos que foram utilizados como base para o banimento desses agrotóxicos verificou que a presença do parationa esta relacionado à diminuição do peso do timo, diminuição da proliferação dos linfócitos T, diminuição da quimiotaxia de neutrófilos, diminuição da resposta secundária de anticorpos, já o forato está relacionado com a queda de contagem de linfócitos.

As consultas ficam abertas por dois meses, período em que a população pode opinar sobre o banimento dos agrotóxicos.

Veja ainda publicação das consultas públicas da Anvisa no Diário Oficial da União.

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